DEUS QUER A CONVERSÃO DO INJUSTO, E NÃO A SUA MORTE!

EZEQUIEL 18:21-30
Textos

UM "MORTO" PELO QUAL MUITOS MORREM

O enigma do seu triunfo, que não encontra símile na história, ainda hoje confunde os que desejam a sua morte e a erradicação de sua memória. Como explicar que filósofos, homens de ciência, pessoas simples ou inveterados pecadores continuem vendo nele alguém que vale a pena seguir e por quem vale a pena morrer? Como justificar que, decorridos quase dois milênios de sua morte ignominiosa, incontáveis são os mártires que dele têm dado testemunho com o sangue e a vida? Como traduzir em termos de lógica simplesmente humana o fato de que, somente no século passado, sobre ele se editassem cerca de 62.000 volumes?

Esta pergunta, aparentemente ingênua, queima como ferro em brasa o ceticismo dos tergiversantes e a fé simplista dos incoerentes.

Couchoud, depois de tentar convencer a si mesmo e a seus leitores de que a "divinização" de Jesus de Nazaré não passa de um fenômeno cultural, faz este desabafo, verdadeira confissão de perplexidade:

"Quem quer que tente esclarecer as origens do cristianismo, deverá tomar uma decisão.

Jesus é um problema.

O cristianismo é outro.

Não poderá resolver um dos problemas senão deixando o outro insolúvel.

Se abordar o problema de Jesus, deverá percorrer os caminhos de Renan, Loisy, Guignebert (ou seja, os caminhos da escola crítica, n.d.r.). Pintará, com mais ou menos colorido, um agitador messiânico, um mestre do tempo dos últimos Herodes. Atribuir-lhe-á traços verossímeis para poder integrá-lo na história. Se for um crítico hábil, fará um retrato plausível, merecedor de aplauso.

Mas o cristianismo erguer-se-á como fato inexplicável.

Como o mestre obscuro se mudou em Filho de Deus, objeto inexaurível do culto e da teologia cristã?

Encontramo-nos aqui fora dos caminhos abertos da história. Faltam as analogias. O cristianismo é um absurdo incrível e o milagre mais extravagante" (MESSORI, Vittorio. Ipotese su Gesù, Ed. bras. intitulada Hipóteses sobre Jesus. Ed. Paulinas, S. Paulo, 1978, p. 177).

A réplica nos vem de Santo Agostinho e toca no cerne de um encontro já presente numa busca inefável: "Não me procurarias se já não me tivesses encontrado".

A resposta aceita pelos que decidiram apostar no triunfo da fraqueza de Deus sobre o poder da morte e do pecado foi dada pelos dois anjos postados junto ao túmulo vazio: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo" (Lc 24,5)?


 
DO JESUS DA HISTÓRIA AO CRISTO DA FÉ

Milan Machovec, marxista e professor em Praga até 1970, autor de um livro intitulado Jesus für die Atheisten, lança esta interrogação:

"Como foram capazes os seguidores de Jesus, em particular o grupo de Pedro, de superar a terrível desilusão, o escândalo da cruz, chegando mesmo a iniciativas vitoriosas? Como pôde um profeta, cujas predições não se tinham verificado, tornar-se ponto de partida da maior religião do mundo? Gerações inteiras de historiadores fizeram a si próprios esta pergunta e continuarão a fazê-la" (MACHOVEC, op. cit., p. 156 e 157).

A ponte que liga o Jesus da história ao Cristo da fé jamais será transposta pelos que lhe negam a divindade e consideram miragem a gesta salvadora. A resposta vem de Paulo, ele próprio perseguidor dos seguidores de Jesus antes que o fulminasse a luz que o transformou de Saulo em Paulo.

O testemunho desse fariseu convertido é indesmentível. Foi um combatente infatigável do Evangelho. Sofreu prisões, torturas, naufrágios, degredos e afrontas pela fé no Cristo. Tamanha entrega a uma causa não poderia ter por fundamento mero capricho da fantasia ou adesão à sombra de um homem desaparecido após morte aviltante.

Possuidor de notável cultura, Paulo tinha razões que justificavam o seu radical procedimento: Segundo a crítica unânime, já antes do ano 57 depois da morte de Jesus, Paulo havia redigido o relato da ressurreição, a ele transmitido por testemunhas ainda vivas, como Pedro e quase todos os apóstolos.

Eis que na primeira carta aos coríntios Paulo diz: "Transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi". Depois deste breve intróito, refere os fatos: "Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente, apareceu a Tiago, e, depois, a todos os apóstolos. Em último lugar, apareceu também a mim, um abortivo" (ICor 15,3-9).

Somente a ressurreição oferece resposta aceitável a um fato anterior que Guignebert assim comenta:

"A crucifixão infame e, para o sentimento comum, escandalosa, lançou os discípulos do entusiasmo à mais profunda prostração".

Se a prostração a que alude Guignebert tivesse dominado as primeiras comunidades cristãs e a certeza da ressurreição não as movesse à ação missionária, não teriam elas florescido apesar da hostilidade de membros do Sinédrio, de Herodes Agripa I e das violentas perseguições que lhes moveram imperadores pagãos, a ponto de tornar-se, a frágil Igreja construída sobre a pedra angular do Cristo, a expressão de fé mais robusta de todos os tempos.


(PÁGINAS 52, 53, 54 E 55 DO LIVRO “JESUS E OS EXCLUÍDOS DO REINO”, DE ANTÔNIO ESTÊVÃO ALLGAYER - EDITORA VOZES - 1994)
Antônio Estêvão Allgayer
Enviado por Torcedor da Verdade em 01/04/2018
Alterado em 11/05/2018
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários


 E-MAIL: torcedordaverdade@gmail.com